segunda-feira, novembro 08, 2010

Recordar ídolos Após a independência

“Jesus” Uma lenda africana

Osvaldo Fernando Saturnino de Oliveira “Jesus” foi um dos jogadores mais carismáticos e um dos melhores marcadores que a história de futebol angolano já registou. O livro Trumunu, que conta a história do futebol nacional e das suas estrelas, de Mateus Gonçalves e Carlos Pacavira, em 2004, é um dos locais onde podemos encontrar imortalizados os feitos do craque e dos seus colegas.
Jesus, nome pelo qual é conhecido pelos amantes de futebol e pessoas mais próximas, militou durante mais de 10 anos no Petro de Luanda, equipa com a qual se sagrou várias vezes campeão nacional, e experimentou, o profissionalismo no Varzim de Portugal.
A nível do continente, o jogador é conhecido, entre outros, pela classe com que ajudou a sua equipa, o Petro Atlético de Luanda, em grandes campanhas nas competições africanas e pela representação na selecção nacional, chegando a impor respeito em competições difíceis frente a países como Nigéria e Camarões. Jesus fez-nos uma retrospectiva da sua carreira e dividiu também algumas das alegrias e tristezas no desporto.

Quando e como começou a jogar futebol?
Comecei em 1970, tinha eu 14 anos. Fui com amigos treinar no Futebol Clube de Luanda, onde hoje é a Cidadela. Era o clube mais perto do bairro onde cresci. Na realidade, comecei a jogar bem mais cedo, aos sete, oito anos. Mas foi nesta altura, aos 14, em que passei a jogar em campeonatos. Depois passei para o Benfica, Terra Nova e para o Petro Atlético de Luanda.
Este reconhecimento vem premiar não só a mim mas todos aqueles que, de uma forma directa ou indirecta, trabalharam connosco quer como colegas de equipa 
ou adversários, tanto a nível nacional ou internacional.

Onde foi a sua infância?
A minha infância foi no bairro indígena, perto da Cidadela. Cresci em casa dos meus pais. Era o mais novo de cinco irmãos. Apesar da diferença de idades, sempre tive um bom relacionamento com os meus irmãos. Um deles, Eugénio Saturnino, jogava no Clube Atlético de Luanda, coisa que eu também fazia, mas claro, com “malta” da minha idade (risos).

Foi apoiado pela família?
No início, não. Comecei a jogar oficialmente a partir de 20 de Abril de 1974, porque só então tive o consentimento dos meus familiares. A prioridade dos meus pais naquele tempo é a mesma que tenho hoje com os meus filhos, a escola e a formação académica. Estudava na então Escola Industrial de Luanda, estava matriculado no curso de construção civil e só depois de ter terminado o curso médio é que comecei a jogar profissionalmente.
Houve algo que lhe tenha servido de incentivo?
Assistia sempre os jogos do campeonato nacional, no campo do São Paulo. Ia com os meus amigos do bairro e acho que aquilo acabou por ser o grande incentivo para que o futebol profissional se viesse a tornar cada vez mais um objectivo do qual não queria abrir mão.

Quem foram os seus grandes “padrinhos” no futebol?
Tive sempre admiração pelo treinador António Clemente. Acompanhei a carreira de excelentes jogadores quer nacionais quer internacionais, que, de uma forma geral, foram o maior incentivo que tive para atingir os níveis que consegui alcançar. Fui tendo como referência esses bons jogadores e acreditando sempre que trabalhando com dedicação acabaria por atingir os níveis que eu perseguia como desportista.

Em que clubes é que chegou a jogar?
Joguei no Futebol Clube de Luanda, Benfica, Terra Nova, Petro Atlético, Oliveirense e Varzim Futebol Clube. Estes dois últimos já em Portugal.

Como foi a sua experiência em Portugal, como jogador?
Foi boa, tive a oportunidade de conhecer o futebol profissional português e constatar as diferenças do futebol que praticávamos, que era não amador.

Quando é que terminou a sua carreira?
Em 1990. Já estava com 37 anos e achei que estava na altura de parar.

Durante a sua carreira sofreu algum impedimento físico?
Sim, fui operado quatro vezes, ao menisco interno e externo e ao ligamento cruzado. Resultado de várias lesões que fui sofrendo ao longo da carreira. É difícil encontrar algum jogador profissional que não tenha lesões.

Quem foram os seus companheiros na época?
Joguei com Ndunguidi, Abel, Savedra, Garcia, Lourenço, Salviano, Santo António e muitos outros.

Qual foi o melhor e maior jogo da sua carreira?
Foi o desafio em que goleamos o 1.º d’Agosto na Cidadela, por 6-2, penso que em 1986. Fui o autor de quatro dos seis golos. Foi bastante memorável.
PERFIL
  • Nome: Osvaldo Fernando Saturnino 
de Oliveira
  • Data de nascimento: 
14 de Janeiro de 1956
  • Naturalidade: Luanda
  • Equipa do coração: Petro
  • Comida favorita: Calulu
  • Ídolos no futebol: 
Pelé, Maradona, Eusébio, Diniz e Gomes
  • Viagem Inesquecível: 
A viagem aos Camarões na disputa da Liga 
dos Clubes Campeões Africanos e esta agora 
a Accra, para a recepção do prémio

Que análise faz do futebol angolano?
O nosso futebol está numa fase de organização competitiva em que despontam novos valores, e em que os clubes melhoram cada vez mais a sua organização interna, o que é importante, tendo como prioridade os escalões de formação que, para todos os efeitos, servirão de base para o desenvolvimento da modalidade.


os óscares do futebol
Os Glo Caf-Awards são os prémios mais importantes do continente africano. Também conhecidos como os “óscares do futebol”, eles vêm  reconhecer e prestigiar os grande nomes do futebol em África. Angola mereceu pela primeira vez, através do conhecido craque, o título e troféu de lenda africana do futebol, em homenagem à sua longa carreira.

Já pensou em tornar-se treinador?
Não só já pensei como já fui também. Treinei o Petro de Luanda e fui campeão com esta mesma equipa. Actualmente sou empresário e dirigente desportivo.

Quantos campeonatos e títulos já ganhou?
Ganhei sete campeonatos nacionais, cinco taças de Angola, recebi 3 troféus de melhor marcador do campeonato nacional, fui vice-campeão dos jogos da África central e campeão como treinador pelo Petro Atlético de Luanda uma vez. Tive também algumas distinções como a da gala dos desportos em 2007, e esta agora da CAF que é a mais recente, de figura lendária do futebol angolano e africano.

Com certeza foi uma grande honra para si...
É um prémio! É o reconhecimento de tudo quanto foi possível fazer em Angola e nos diferentes campos de África, de modo que esse reconhecimento vem premiar não só a mim como também todos aqueles que de uma forma directa ou indirecta trabalharam comigo quer como colegas de equipa quer como adversários, tanto a nível nacional como a nível internacional. Foi uma cerimónia organizada pela CAF que reconheceu o melhor jogador africano, o melhor do último mundial de sub-20 e, a par disso, foram premiadas também três figuras consideradas lendárias do futebol africano. Uma delas fui eu.

O que tem feito em prol do desenvolvimento deste desporto em Angola?
Tenho trabalhado como vice-presidente da Federação Angolana de Futebol, a FAF, dando o meu contributo para o desenvolvimento da modalidade a nível da organização do futebol, quer a nível de clubes, quer a nível das diferentes selecções nacionais. A reorganização das associações provinciais de futebol, de forma a tornar equilibrado o desenvolvimento da modalidade nas diferentes províncias do país, tem sido um dos meus maiores objectivos.
Anseia alcançar estes objectivos em breve?
Sim, espero que sim. Pretendo continuar ligado ao futebol e um dia assumir a presidência da federação, tendo como base um projecto actualizado para o desenvolvimento da modalidade. Priorizando a organização dos escalões de formação, melhorando a competitividade interna nesses escalões para que tenhamos uma base mais alargada para a alimentação das selecções nacionais, quer em número de atletas quer na qualidade a praticar, diminuindo os desequilíbrios em termos de infra-estruturas entre as diversas províncias. Há muito a ser feito, mas o que não falta é força de vontade e dedicação nos nossos novos talentos da bola.
os vencedores dos prémios da caf
Em reconhecimento das proezas realizadas no “desporto rei”, o antigo futebolista internacional angolano, Osvaldo de Oliveira, foi homenageado na capital do Gana, Accra, numa gala organizada pela Confederação Africana de Futebol (CAF), pelo enorme contributo que deu para o desenvolvimento da modalidade a nível nacional e internacional.
Para além do angolano, que figura até hoje  na lista dos melhores marcadores angolanos de todos os tempos, e que actuou no Petro de Luanda e Varzim FC, de Portugal, a CAF homenageou pela mesma causa, os ex-atletas Abedi Pelé, Anthony Baffoe, Anthony Yeboah, Abdul Karim Razak, Ibrahim Sunday, todos do Ghana, e o argelino Ali Fergani.
A homenagem foi extensiva a treinadores, dirigentes e jogadores que se destacaram no ano transacto com destaque para o camaronês Samuel Eto’o, o ivoiriense Didier Drogba, os nigerianos Emmanuel Sani e Ibrahim Sunday e o ghanense Dominic Adiyiah.
Jesus ganhou sete campeonatos nacionais, cinco taças de Angola, recebeu 3 troféus de melhor marcador do campeonato nacional, foi vice-campeão dos jogos da África central, e campeão como treinador pelo Petro Atlético de Luanda. Seguiram-se algumas distinções como a da gala dos desportos em 2007 (acima ilustrado), e a da CAF que é a mais recente, de figura lendária do futebol africano pelos muitos anos de carreira e de contributo em prol do futebol angolano.

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